Revolução Tecnológica e Matérias-Primas: o Passado e o Futuro de Mãos Dadas?

Com o avanço da Revolução Tecnológica e das plataformas digitais, observamos transformações profundas nas interações e nos negócios, assim como nas fundações do que serão as cidades do futuro. Uma dessas transformações-chave é a procura, cada vez mais acelerada, por matérias‑primas (nomeadamente, terras raras), enquanto elementos vitais para tecnologias avançadas e sustentáveis.

A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA E A “SEDE” DE MATÉRIAS-PRIMAS

A Revolução Tecnológica quebrou as barreiras das formas convencionais de comunicação, dando origem ao ciberespaço. Evoluímos da palavra escrita para a palavra falada, caminhando agora rumo a um espaço digital marcado pela redução de distâncias e pela agilidade e facilidade na comunicação.

Neste contexto, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) são compreendidas como um agrupamento de recursos tecnológicos que estabelecem um novo paradigma comunicativo e que se tornam ferramentas essenciais na “era da informação”.

Já as plataformas digitais, que incluem desde redes sociais até sistemas de computação em cloud, emergiram como catalisadoras da inovação tecnológica recente. Transformaram o cenário global, alterando a maneira como interagimos socialmente, reformulando a economia e criando oportunidades para novos negócios e avanços científicos. Democratizaram o acesso à informação, tornando-a mais instantânea e acessível. Redes sociais como o Facebook, Twitter/X e Instagram mudaram a forma como partilhamos informações e nos conectamos, superando barreiras geográficas e culturais. O comércio eletrónico e as soluções de negócios baseadas em cloud alteraram profundamente o ambiente empresarial, viabilizando operações globais, reduzindo custos e elevando a eficiência. Tecnologias que envolvem inteligência artificial e machine-learning, empregadas em sistemas que conhecemos (“Hello, Siri!”), reformulam gradualmente vários setores, da saúde à indústria automóvel, e possuem um papel significativo na configuração das cidades do futuro. São os alicerces sobre os quais as cidades do futuro serão construídas, criando ambientes urbanos mais conectados, eficientes e sustentáveis.

A referida evolução tecnológica tem levado à procura, cada vez mais acelerada, por matérias-primas que desempenham um papel fundamental na transição energética, das quais o exemplo mais paradigmático são as terras raras – um conjunto de elementos químicos de alto valor económico, indispensáveis atualmente para uma enorme variedade de aplicações de alta tecnologia, desde dispositivos móveis até veículos elétricos e sistemas de defesa. As estimativas do Banco Mundial indicam que esta procura poderá aumentar em mais de 400% até 2050.

Contudo, a extração e o processamento de matérias-primas, em particular de terras raras, representam processos complexos e dispendiosos para a indústria mineira. Se, por um lado, a sua crescente importância estratégica no cenário tecnológico e geopolítico mundial torna a prospeção e a exploração mais apetecíveis, por outro lado enfrenta-se uma preocupação central: o aparente paradoxo representado pela procura de tecnologias “limpas” e sustentáveis a partir de uma indústria tradicionalmente rotulada como poluente, nefasta e insegura.

Conseguirão os stakeholders assegurar o progresso tecnológico sem a contribuição da indústria mineira? Não parece ser o caso, pois a importância das matérias-primas a partir dela obtidas é hoje inegável. Mas que alterações terá a atividade mineira de sofrer para estar apta a desempenhar o seu papel no progresso tecnológico? Como poderão os países mais desenvolvidos contribuir para assegurar a oferta de matérias-primas críticas sem agudizar os problemas económico-sociais já existentes?

DESAFIOS E OPORTUNIDADES: QUEM, COMO E ONDE?

A exploração de matérias-primas está no centro de um esforço global para harmonizar progresso e sustentabilidade, como vimos acima. Consequentemente, as empresas do setor mineiro vêm adotando tecnologias e métodos inovadores com vista a tornar a exploração mineira mais precisa, limpa e eficiente, e menos invasiva e prejudicial ao meio ambiente e às comunidades locais que vivem nas zonas de extração mineral. E as mudanças parecem não ficar por aqui.

A própria investigação está cada vez mais orientada para o desenvolvimento de processos de exploração, extração e processamento mais limpos e que consumam menos energia (por exemplo, através da utilização de solventes mais seguros e métodos que reduzam a geração de resíduos tóxicos). Estes avanços não só melhoram a sustentabilidade ambiental da exploração de matérias‑primas, como aumentam também a segurança e a saúde de todos os envolvidos no processo.

Práticas como a reabilitação de minas (que garante que os locais de exploração mineira são restaurados e reintegrados no ambiente natural), o já referido desenvolvimento de tecnologias de processamento mais verdes, o aumento da eficiência energética das operações e a captura e armazenamento de carbono nesse mesmo âmbito estão já na agenda do setor mineiro.

Acresce que, nos últimos anos, temos assistido a um interesse crescente pela prospeção e exploração de terras raras em países desenvolvidos ou em zonas pouco exploradas (veja-se o exemplo da região do Ártico). Porquê? A verdade é que a importância crescente destas matérias‑primas aumenta o risco de dependência face aos maiores produtores mundiais. E, à semelhança da indústria petrolífera, também a indústria mineira floresceu, muito comummente, em países que, não obstante as suas riquezas naturais, são qualificados como “em vias de desenvolvimento”, “jurisdições pouco transparentes”, e/ ou como dispondo de sistemas políticos “instáveis” (a chamada resource-rich curse). Parece, por isso, natural que os maiores consumidores destas matérias-primas não desejem enfrentar um cenário de dependência face a produtores assim caraterizados – e estejam, por conseguinte, dispostos a explorar soluções nos seus próprios territórios que lhes permitam uma crescente autonomia tecnológica. Esta tendência recente vem contrariar uma outra, já antiga – a do desejo da manutenção das atividades extrativas fora dos nossos horizontes visuais (Not In My Backyard).

Se for alcançado o equilíbrio desejável entre o progresso e a sustentabilidade no desenvolvimento da indústria mineira, os benefícios serão inúmeros. Desde a componente eminentemente tecnológica – acessibilidade crescente da tecnologia à população, capacidade de miniaturização e eficiência energética de gadgets, desenvolvimento de plataformas digitais avançadas (como data centres que sustentem a infraestrutura de cloud computing) e desenvolvimento de cidades inteligentes – à componente social (criação de postos de trabalho, desenvolvimento estrutural de zonas rurais e melhoria das condições de trabalho na indústria mineira), esta pode muito bem ser uma oportunidade inédita para o passado e o futuro darem as mãos.

A indústria mineira não é, por isso, apenas uma componente fundamental na transição para uma economia verde/de baixo carbono, mas também um propulsor vital para a infraestrutura tecnológica das cidades modernas, abrindo caminho para ambientes urbanos mais conectados, eficientes e inteligentes.A exploração responsável de recursos naturais (e, em particular, das matérias-primas consideradas críticas para o desenvolvimento tecnológico) é fundamental para garantir a sua disponibilidade para as gerações futuras.

O FUTURO

A Revolução Tecnológica avança a passos largos, sobretudo impulsionada por plataformas digitais. Contudo, permanece alicerçada numa indústria de base tradicional. A prospeção e a exploração de matérias-primas críticas (principalmente, terras raras), cruciais nesta era de inovação, simbolizam a interseção entre o desenvolvimento tecnológico, a procura de recursos naturais e a responsabilidade ecológica.

As estratégias hoje adotadas na extração e utilização destes elementos químicos determinarão a sustentabilidade das cidades do futuro, já que as matérias-primas críticas não são apenas recursos a serem explorados, mas verdadeiros catalisadores de um desenvolvimento urbano mais consciente e sustentável. É, por isso, essencial a existência de um alinhamento entre os standards e as expectativas dos Estados, das empresas do setor mineiro e dos próprios consumidores. Nessa medida, fatores como (i) a maior robustez e acessibilidade ao financiamento de atividades mineiras relacionadas com matérias-primas críticas, (ii) a maior rapidez na atribuição de direitos mineiros por parte dos Estados e (iii) a maior predisposição dos consumidores para pagarem um preço diferenciado por produtos derivados de atividade mineira mais responsável e sustentável poderão ser determinantes para o desejado equilíbrio entre o desenvolvimento tecnológico, a procura de recursos naturais e a responsabilidade ecológica.

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